Pular para o conteúdo

Rebobinamento de motores: quando vale a pena, o que pesa no orçamento e o que a oficina deve entregar

Headcore

Em resumo

Rebobinamento de motores é a troca do enrolamento do estator por bobinas novas, seguida de testes. Feito com boas práticas, mantém o rendimento: em ensaios independentes, a perda média foi de 0,1 ponto percentual. Vale a pena em motores grandes ou especiais; se o reparo passar de 60 a 65% do preço de um motor novo de alto rendimento, troque.

O que é rebobinamento de motor?

É a troca do enrolamento do estator. A oficina aquece o estator em forno para degradar o isolamento antigo, retira as bobinas, enrola bobinas novas com os dados do enrolamento original, impregna com verniz ou resina e testa o motor.[7][5]

Entre as boas práticas, o guia de motores de 2014 do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE) lista isolamento classe F ou superior e conexões brasadas em vez de crimpadas; em motor bobinado com alumínio, trocar por cobre reduz as perdas no enrolamento.[5]

Vale a pena rebobinar o motor ou é melhor trocar?

Rebobinar costuma compensar nos motores grandes ou especiais; trocar, nos pequenos, antigos e de uso geral. São as regras práticas do guia do DOE de 2014, que manda cotar as duas opções em vez de confiar só nelas.[5]

Vale a pena rebobinar o motor ou é melhor trocar?
SituaçãoTende aPor quê
Orçamento do reparo acima de 60 a 65% do preço de um motor novo de alto rendimentoTrocarConfiabilidade, garantia nova e menor custo de operação recuperam a diferença
Motor de uso geral abaixo de 20 a 25 hp (cerca de 15 a 19 kW, ou 20 a 25 cv)TrocarO reparo pode custar mais que um motor novo de alto rendimento
Motor abaixo de 40 hp (cerca de 30 kW) com mais de 15 anosMuitas vezes, trocarO rendimento costuma ficar bem abaixo do de um motor novo de alto rendimento
Motor grande em planta de operação contínuaRebobinarMuitas indústrias de processo contínuo reparam acima de 50 hp (cerca de 37 kW) e trocam abaixo disso
Motor especial ou de aplicação definidaRebobinarO motor novo tem sobrepreço significativo
Motor pequeno de alto rendimento, fora da garantia, que precisa de rebobinamentoTrocarO reparo de motores de alto rendimento costuma ter acréscimo de 15% no custo
Núcleo danificado na falha ou na retirada das bobinasTrocar, ou reconstruir o núcleoIsolamento entre chapas danificado não tem reparo
Queimas repetidasAchar a causa antesAnálise de causa raiz antes de qualquer opção

Fontes:[5]

Qual o rendimento mínimo de um motor novo no Brasil?

É o rendimento nominal mínimo da Tabela 1 da Portaria Interministerial MME/MCTIC/MDIC nº 1/2017, nível que o mercado chama de IR3. A portaria trata de motores fabricados, importados e comercializados no País, e a tabela vale para os trifásicos de indução com rotor gaiola de esquilo de 0,12 kW (0,16 cv) a 370 kW (500 cv), de 2, 4, 6 e 8 polos (arts. 2º e 3º do Anexo).[1][8]

A portaria deu dois anos, contados da publicação no Diário Oficial da União em 30 de agosto de 2017, para fabricar e importar motores abaixo desse nível, e dois anos e meio para vendê-los (arts. 4º e 5º do Anexo); o prazo de fabricação e importação venceu em agosto de 2019.[1]

Os valores seguem as tolerâncias da ABNT NBR 17094-1 (art. 3º, parágrafo único). "Os motores recondicionados e que são comercializados no País" estão sujeitos aos mesmos níveis (art. 2º, parágrafo único), mas, para eles, a fiscalização do Inmetro "fica condicionada à análise do desenvolvimento de uma medida regulatória" (art. 8º, parágrafo único).[1]

Quais são os rendimentos mínimos IR3 por potência?

Abaixo, um trecho da Tabela 1 da Portaria Interministerial nº 1/2017, em rendimento nominal mínimo (%) por velocidade síncrona; entre parênteses, os valores menores que as notas da tabela dão para algumas carcaças pequenas.[1]

Quais são os rendimentos mínimos IR3 por potência?
Potência2 polos (3.600 rpm)4 polos (1.800 rpm)6 polos (1.200 rpm)
1 cv (0,75 kW)80,583,5 (83,0 na carcaça 80)82,5
2 cv (1,5 kW)85,586,588,5 (86,5 na carcaça 100)
5 cv (3,7 kW)88,589,589,5
10 cv (7,5 kW)90,291,791,0
20 cv (15 kW)91,093,091,7
50 cv (37 kW)93,094,594,1
100 cv (75 kW)94,195,495,0
200 cv (150 kW)95,496,295,8

Fontes:[1]

O rebobinamento reduz o rendimento do motor?

Não de forma mensurável, quando segue boas práticas. Num estudo de 2019 da EASA e da AEMT, associações de oficinas de reparo de motores, um laboratório independente ensaiou a plena carga dez motores novos IE3 e premium de 30 a 75 kW antes e depois do rebobinamento: o rendimento variou de +0,3 a -0,5 ponto percentual, com média de -0,1, dentro da precisão de ±0,2% do método de ensaio.[6]

O estudo de 2003 das mesmas entidades atribui a ideia corrente de perda de 1 a 5% a estudos anteriores, com motores na maioria pequenos. Nele, os motores rebobinados sem controle específico na retirada das bobinas perderam de 0,3 a 0,5 ponto (0,4 em média), descontado o excesso de graxa nos rolamentos de dois deles; com retirada controlada e queima entre 360 e 370 °C, a variação média foi de -0,1.[6]

O que preserva o rendimento é o método: núcleo do estator abaixo de 370 °C em forno com controle de temperatura, ensaio de perdas no núcleo antes da queima e depois da retirada do enrolamento, e fio de cobre com seção igual ou maior no mesmo esquema de bobinagem.[7][5]

O guia do DOE mostra o custo do erro: isolamento entre chapas danificado não tem reparo, e passar de dez para nove espiras aumenta a corrente de partida em 23%.[5]

Quais testes a oficina deve fazer e registrar?

Os da ANSI/EASA AR100, a prática recomendada da EASA para o reparo de máquinas elétricas girantes, aprovada como norma nacional americana. Ela pede testes na chegada do motor, registro da causa principal da falha e um histórico guardado por pelo menos 3 anos à disposição do cliente, com dados de placa, ensaios e medidas antes e depois do reparo, dados de enrolamento e peças trocadas (itens 1.3.2 e 1.4).[7]

Para motor de baixa tensão, os testes da AR100 incluem:[7]

  • resistência de isolamento com 500 V em corrente contínua por um minuto, com mínimo recomendado de 5 MΩ a 40 °C para bobinagem randômica abaixo de 1 kV (item 4.2.1, Tabelas 4-1 e 4-2);[7]
  • resistência ôhmica do enrolamento, com cada fase a até 2% da média na bobinagem randômica (item 4.3.1);[7]
  • ensaio de surto com duas vezes a tensão nominal mais 1.000 V (pela fórmula, 1.760 V num motor de 380 V), em que uma única forma de onda indica que nenhuma falha foi encontrada (item 4.2.5);[7]
  • ensaio de tensão aplicada no enrolamento, com as tensões da Tabela 4-4, feito uma única vez e só depois de resultados aceitáveis de resistência de isolamento (itens 4.4 e 4.4.1.1);[7]
  • ensaio de perdas no núcleo antes da queima e depois da retirada das bobinas, com fluxo a até 5% do primeiro ensaio (itens 3.1.1 e 4.2.6);[7]
  • ensaio a vazio na tensão e frequência nominais, com rotação comparada à da placa, corrente a vazio, temperatura dos mancais e vibração, esta de até 3,8 mm/s de pico para motor padrão acima de 1.200 rpm em base resiliente (itens 4.5 e 4.5.6).[7]

Motor de área classificada (Ex) pode ser rebobinado em qualquer oficina?

Não sem certificação: pela NR-10 em vigor, materiais, peças, dispositivos, equipamentos e sistemas para instalações elétricas em atmosferas potencialmente explosivas "devem ser avaliados quanto à sua conformidade, no âmbito do Sistema Brasileiro de Certificação" (item 10.9.2).[2]

A nova redação da NR-10, dada pela Portaria MTE nº 737/2026 e em vigor a partir de 1º de junho de 2027, cita o reparo expressamente: equipamentos "fabricados ou importados, e os reparados" para áreas classificadas devem "possuir certificado de acordo com as normas técnicas oficiais estabelecidas pelos órgãos competentes ou as normas técnicas internacionais vigentes" (item 10.6.6.1.1).[3]

A mesma redação exige permissão de trabalho, precedida de análise de risco, e procedimento de trabalho, com trabalhador autorizado, para serviços em eletricidade em áreas classificadas (item 10.6.6.1.2).[3]

Quanto custa rebobinar um motor?

Não existe preço típico por cv: segundo o guia do DOE, o custo de rebobinar um motor de dada potência varia com o projeto, o tipo de falha, a prática de reparo, os materiais e o custo de cada região.[5]

Numa relação de consumo (pelo art. 2º, consumidor é quem adquire ou utiliza produto ou serviço "como destinatário final"), a oficina deve entregar "orçamento prévio discriminando o valor da mão-de-obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, as condições de pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços" (art. 40).[4]

Salvo acordo em contrário, esse orçamento vale por dez dias e, aprovado, só muda por livre negociação (art. 40, §§ 1º e 2º). No reparo, o CDC considera implícita a obrigação de empregar componentes de reposição originais adequados e novos, ou que mantenham as especificações técnicas do fabricante, salvo, quanto a estes, autorização em contrário do consumidor (art. 21).[4]

O que incluir na sua solicitação

  1. Foto da placa: potência (cv ou kW), tensão, frequência, rotação, carcaça, forma construtiva, rendimento ou nível IR, classe de isolamento, número de série.[7][1]
  2. Como o motor queimou, horas de uso, rebobinamentos anteriores e regime: inversor ou partida direta, partidas por hora, poeira, umidade ou calor.[5][7]
  3. Orçamento prévio por escrito, com mão de obra, materiais, condições de pagamento e datas de início e término.[4]
  4. Preço por item: rebobinamento (cobre de seção igual ou maior, isolamento classe F ou superior, verniz), rolamentos, eixo e mancais, balanceamento, testes e frete.[7][5]
  5. Relatório de testes: resistência de isolamento, resistência ôhmica, surto, tensão aplicada, perdas no núcleo antes e depois da retirada das bobinas, corrente e rotação a vazio, vibração.[7]
  6. Queima em forno com controle de temperatura, com o núcleo do estator abaixo de 370 °C.[7][5]
  7. Cotação de um motor novo IR3 da mesma carcaça, forma construtiva e ponta de eixo, com prazo de entrega, para comparar com o reparo.[1][5]
  8. Para motor de área classificada: o certificado Ex de origem e a avaliação da conformidade do motor reparado no Sistema Brasileiro de Certificação.[2][3]
  9. Prazo de devolução e termo de garantia por escrito: prazo da garantia, cobertura de peças e mão de obra, condições.[4]

Perguntas de compradores

Quanto custa rebobinar um motor de 2 cv?

Depende da oficina e da região, mas, num motor de uso geral desse tamanho, o guia do DOE diz que quase sempre compensa trocar: abaixo de 20 a 25 hp, o reparo pode custar mais que um motor novo de alto rendimento. Peça o orçamento do rebobinamento junto com a cotação de um motor IR3 da mesma carcaça.[5]

Quantas vezes um motor pode ser rebobinado?

O estudo de 2003 da EASA e da AEMT não encontrou perda em rebobinamentos repetidos com boas práticas: cinco motores de 75 a 150 kW rebobinados duas ou três vezes variaram, em média, -0,1 ponto percentual, e dois de 5,5 kW que passaram três vezes pelo forno e foram rebobinados uma vez ganharam 0,5 ponto. Com o núcleo danificado é diferente: o isolamento entre chapas não tem reparo, e o rendimento só volta com reparo grande do núcleo.[6][5]

Qual a garantia de um rebobinamento?

A do termo escrito: pelo CDC, a garantia contratual complementa a legal, e o termo deve dizer em que ela consiste, a forma, o prazo e o lugar para exercê-la (art. 50, parágrafo único). Numa relação de consumo, o prazo para reclamar de vício aparente no fornecimento de serviço e de produtos duráveis é de noventa dias, contados do término do serviço (art. 26, II e § 1º). Fora dela, peça prazo e cobertura por escrito.[4]

Descreva o serviço.

Publique uma solicitação e os fornecedores que fazem esse trabalho podem responder.

Publicar solicitação

Fontes

  1. Ministério de Minas e Energia, Portaria Interministerial MME/MCTIC/MDIC nº 1/2017 e Anexo: Programa de Metas para Motores Elétricos Trifásicos de Indução Rotor Gaiola de Esquilo (DOU de 30.8.2017, Seção 1), 30 de agosto de 2017.
  2. Ministério do Trabalho e Emprego, NR-10: segurança em instalações e serviços em eletricidade (texto vigente, com alterações até a Portaria SEPRT nº 915/2019), julho de 2019.
  3. Ministério do Trabalho e Emprego, NR-10: segurança em instalações elétricas e serviços em eletricidade (redação da Portaria MTE nº 737/2026, vigência a partir de 1º de junho de 2027), maio de 2026.
  4. Câmara dos Deputados, Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do Consumidor), norma atualizada, setembro de 1990.
  5. Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), Advanced Manufacturing Office, Premium Efficiency Motor Selection and Application Guide: A Handbook for Industry (DOE/GO-102014-4107), fevereiro de 2014.
  6. EASA e Association of Electrical and Mechanical Trades (AEMT), The Effect of Repair/Rewinding on Premium Efficiency/IE3 Motors (estudo de 2019, com o estudo de 2003), janeiro de 2021.
  7. EASA (aprovada como American National Standard), ANSI/EASA AR100-2025: Recommended Practice for the Repair of Rotating Electrical Apparatus, 2025.
  8. WEG, Portaria IR3: um novo tempo (e-book sobre a Portaria Interministerial nº 1/2017), abril de 2019.