Tolerância dimensional: como indicar no desenho para receber a peça certa e comparar preços
Em resumo
Tolerância dimensional é a variação aceita numa medida, entre uma dimensão máxima e uma mínima. No desenho, dê tolerância própria às cotas de encaixe, por afastamentos, limites ou código ISO como H7, e cite na legenda a norma de tolerância geral do processo. Na entrega, confira as medidas com referência a 20 °C, considerando a incerteza de medição.
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O que é tolerância dimensional?
Tolerância dimensional é a variação aceita numa medida da peça, para mais ou para menos da dimensão nominal do desenho. Como todo processo de fabricação está sujeito a imprecisões, a apostila de desenho mecânico da UFPR chama de tolerância dimensional os desvios aceitáveis que não prejudicam a qualidade da peça. Para contratar o serviço, veja usinagem de peças.[1]
No exemplo da apostila, um pino de diâmetro nominal 20 mm com afastamentos de +0,28 mm e +0,18 mm tem dimensão máxima de 20,28 mm e mínima de 20,18 mm: o campo de tolerância é de 0,10 mm, e toda peça entre esses limites é aceita.[1]
Para furos e eixos, o código de tolerâncias é o da ISO 286-1:2010, que vale para tamanhos lineares de cilindros e de duas superfícies paralelas opostas; os afastamentos das classes de tolerância de uso comum para furos e eixos estão nas tabelas da ISO 286-2:2010.[2][3]
Como indicar a tolerância dimensional no desenho?
Por afastamentos para mais e para menos, por limites superior e inferior ou pelo código de classe de tolerância da ISO 286-1: são as três formas de indicar a tolerância de um tamanho linear que a ISO 14405-1 lista na edição de 2016, já substituída pela de 2025. As cotas sem nenhuma delas ficam com a tolerância geral que o desenho citar.[4][5]
| Forma | Exemplo | O que diz | Onde usar |
|---|---|---|---|
| Afastamentos junto da cota | 20 +0,28/+0,18 | A medida pode ir de 20,18 a 20,28 mm | Cotas funcionais com tolerância própria |
| Limites superior e inferior | 30,2/30,181 | A medida fica entre 30,181 e 30,2 mm | Cotas funcionais, com os limites já escritos |
| Código ISO | 40 H7 | Furo de 40 mm: o H maiúsculo é a tolerância de furo padrão e o 7, a qualidade de trabalho; os afastamentos saem das tabelas | Encaixes entre furo e eixo |
| Tolerância geral na legenda | ABNT NBR ISO 2768-1:2001 e a classe, ou ABNT NBR ISO 22081:2025 | Vale para as cotas sem tolerância individual | As demais cotas; a NBR ISO 2768-1 é para peça usinada ou conformada de chapa |
| Tolerância geral de peça soldada | ISO 13920:2023 e a classe | Comprimentos, ângulos, forma e posição de estruturas soldadas, em quatro classes | Estruturas e conjuntos soldados |
| Tolerância geral de peça fundida | ISO 8062-3:2023, na legenda ou perto dela | Tolerâncias dimensionais e geométricas gerais e graus de sobremetal de usinagem | Peças fundidas, inclusive as que ainda vão ser usinadas |
Qual a diferença entre tolerância dimensional e geométrica?
A tolerância dimensional limita o tamanho; a geométrica limita forma, orientação e posição, e uma não substitui a outra. A ISO 13920:2023 se baseia no princípio da independência da ISO 8015, pelo qual as tolerâncias dimensionais e as geométricas se aplicam independentemente umas das outras.[10][9]
Por isso um diâmetro dentro da tolerância de tamanho não diz nada sobre a retitude, a planeza ou a circularidade da peça. A apostila da UFPR mostra o caso de um pino com todas as dimensões efetivas dentro da tolerância e o corpo deformado: estar na medida, sozinho, não basta para a peça funcionar.[10][1]
A ISO 8015:2011 traz os conceitos, princípios e regras fundamentais das normas de especificação geométrica de produto (GPS), vale para interpretar as indicações GPS em todo tipo de desenho e entende desenho no sentido mais amplo: todo o pacote de documentação que especifica a peça.[9]
A ABNT NBR ISO 22081:2025, publicada em 26 de junho de 2025 e em vigor, traz as regras para definir e interpretar as especificações gerais, geométricas e de tamanho, estabelecidas de acordo com a ISO 8015:2011, item 5.12; pela ISO 22081, elas valem só para elementos integrais da peça.[7][8]
Ajuste com folga, incerto ou com interferência: o que pedir?
Diga à oficina como as duas peças vão trabalhar juntas. Na apostila de desenho mecânico da UFPR, o sistema de ajustes tem três classes: móveis ou deslizantes, com folga; incertos ou indeterminados; e fixos ou prensados, com interferência.[1]
A ISO 286-1:2010 define a terminologia dos ajustes entre dois elementos de tamanho e explica os princípios de furo-base e eixo-base.[2]
Na prática, a apostila ensina a ler um par de tolerâncias de furo e eixo assim:[1]
- Há folga quando o afastamento superior do eixo é menor que o afastamento inferior do furo, como no exemplo da apostila com furo de 40 mm.[1]
- No sistema furo-base, o afastamento inferior do furo é sempre zero: num furo 40 H7, a dimensão mínima é 40 mm. É o sistema mais comum, segundo a apostila.[1]
- No sistema eixo-base, a letra h do eixo indica o sistema, como no par J7 e h6 do exemplo de 70 mm da apostila.[1]
- A apostila cita o furo-base em máquinas-ferramenta, motores de combustão interna e compressores, e o eixo-base em eixos de transmissão e máquinas agrícolas, de construção civil, têxteis e de elevação; a escolha, diz ela, está ligada à conveniência econômica de produção.[1]
Tolerância mais apertada deixa a peça mais cara?
Pode encarecer, e por isso as tolerâncias gerais partem do que a oficina faz normalmente: as classes da ISO 13920:2023 se baseiam na exatidão habitual da oficina, e o critério principal para escolher uma classe é a exigência funcional da peça.[10]
A apostila da UFPR descreve o sistema ISO de tolerâncias e ajustes como um conjunto de princípios, regras e tabelas para a escolha racional de tolerâncias e ajustes "de modo a tornar mais econômica a produção de peças mecânicas intercambiáveis".[1]
Tolerância pequena também puxa o acabamento: segundo a mesma apostila, o controle da rugosidade passa a importar quando a tolerância dimensional é tão pequena que as irregularidades da superfície ficam maiores que ela.[1]
Na prática, aperte só as cotas que encaixam, vedam ou posicionam outra peça e deixe as demais na tolerância geral: a ABNT NBR ISO 2768-1:2001 tem como objetivo simplificar as indicações nos desenhos. Mande o mesmo desenho, com as mesmas tolerâncias, a todas as oficinas, para que os preços se comparem.[5][10]
Que tolerância geral vale numa peça soldada ou fundida?
A da norma do processo: para estruturas soldadas, a ISO 13920:2023; para peças fundidas, a ISO 8062-3:2023; e para peças feitas por remoção de material ou conformadas de chapa, a ISO 2768-1:1989, que no Brasil é a ABNT NBR ISO 2768-1:2001.[6][5][10][11]
A ISO 13920:2023 dá tolerâncias gerais de comprimentos, ângulos, forma e posição de estruturas soldadas em quatro classes. Pela mesma norma, a documentação de fabricação com cotas sem tolerância individual é considerada incompleta se não fizer referência, ou fizer referência inadequada, às tolerâncias gerais; a regra não vale para cotas provisórias.[10]
A ISO 8062-3:2023 dá tolerâncias dimensionais e geométricas gerais e graus de sobremetal de usinagem para fundidos de todos os metais, citadas na legenda do desenho ou perto dela. As tolerâncias geométricas que ela cobre são retitude, planeza, circularidade, paralelismo, perpendicularidade, simetria e coaxialidade.[11]
Como conferir a tolerância dimensional na entrega?
Combine antes a temperatura e a regra de decisão. A ISO 1:2022 define a temperatura padrão de referência para especificar propriedades geométricas e dimensionais, como tamanho, forma e posição, e esse valor é de 20 °C desde a primeira recomendação da ISO, de 1951, segundo o instituto nacional de metrologia da Itália (INRiM).[12][13]
O mesmo instituto lembra que as tolerâncias dimensionais e geométricas de um desenho não fazem sentido sem acordo sobre a temperatura em que valem.[13]
Para uma cota medida perto do limite, a ISO 14253-1:2017 estabelece as regras para decidir se a característica de uma peça, ou de um lote, está conforme ou não com a tolerância, levando em conta a incerteza de medição.[14]
Na prática, peça um relatório de medição com o valor medido de cada cota funcional, o instrumento e a temperatura da medição, e escreva no pedido qual regra de decisão vale quando o valor medido fica perto do limite.[14][12]
O que incluir na sua solicitação
- O desenho com tolerância própria em cada cota de encaixe, por afastamentos, limites ou código ISO 286, e a peça com que ela se encaixa (rolamento, eixo, bucha).[4][2]
- A tolerância geral na legenda, com norma, edição e classe: ABNT NBR ISO 2768-1:2001 (peça usinada ou de chapa) ou ABNT NBR ISO 22081:2025; ISO 13920:2023 para peça soldada; ISO 8062-3:2023 para peça fundida.[5][7][10][11]
- As exigências de forma e posição (retitude, planeza, circularidade, coaxialidade) como tolerâncias geométricas, porque a tolerância de tamanho não as controla.[10][11]
- A função de cada encaixe: se as peças giram ou deslizam (folga), ficam presas (interferência) ou se o projeto já define a classe de ajuste e o sistema, furo-base ou eixo-base.[1]
- Quais cotas são críticas e quais podem ficar na tolerância geral.[1][5]
- A rugosidade exigida nas superfícies com tolerância apertada.[1]
- O relatório de medição que quer receber (valor medido de cada cota crítica, instrumento e temperatura), a temperatura de referência de 20 °C e a regra de decisão para valores perto do limite (ISO 14253-1:2017).[14][12][13]
Perguntas de compradores
O que significa H7 no desenho?
É uma tolerância pelo código ISO. Na cota 40 H7 da apostila de desenho mecânico da UFPR, 40 mm é o diâmetro nominal do furo, o H maiúsculo é a tolerância de furo padrão do sistema furo-base e o 7 é a qualidade de trabalho. Os afastamentos não aparecem no desenho: saem das tabelas de classes de tolerância de furos e eixos da ISO 286-2:2010.[1][3]
O que vale quando o desenho não indica a tolerância?
As normas de tolerância geral funcionam por referência no desenho: a ISO 8062-3:2023 vale para fundidos quando citada na legenda ou perto dela, e a ISO 13920:2023 considera incompleta a documentação de peça soldada com cotas sem tolerância individual e sem referência às tolerâncias gerais. Antes de fechar o pedido, peça que a oficina escreva na proposta qual tolerância considerou.[11][10]
Tolerância geral e tolerância dimensional são a mesma coisa?
Não. Tolerância dimensional é a variação aceita em qualquer medida da peça. Tolerância geral é a que vale para as cotas sem tolerância individual, pela norma e classe citadas no desenho, como a ABNT NBR ISO 2768-1:2001, para dimensões lineares e angulares, ou a ABNT NBR ISO 22081:2025, para especificações geométricas e dimensionais gerais.[1][5][7]
Fontes
- Universidade Federal do Paraná, curso de Expressão Gráfica, Apostila de Desenho Mecânico I, III parte: estado de superfície, tolerância dimensional, sistema de tolerâncias e ajustes ABNT/ISO e tolerância geométrica, 2013.
- ISO, ISO 286-1:2010, Geometrical product specifications (GPS): ISO code system for tolerances on linear sizes, Part 1: basis of tolerances, deviations and fits (resumo, confirmada em 2026), abril de 2010.
- ISO, ISO 286-2:2010, Geometrical product specifications (GPS): ISO code system for tolerances on linear sizes, Part 2: tables of standard tolerance classes and limit deviations for holes and shafts (resumo, confirmada em 2026), junho de 2010.
- ISO, ISO 14405-1:2016, Geometrical product specifications (GPS): dimensional tolerancing, Part 1: linear sizes (resumo da edição de 2016, retirada e substituída pela ISO 14405-1:2025), agosto de 2016.
- ABNT Catálogo, ABNT NBR ISO 2768-1:2001, Tolerâncias gerais, Parte 1: tolerâncias para dimensões lineares e angulares sem indicação de tolerância individual (resumo, em vigor, confirmada em 2017), fevereiro de 2001.
- ISO, ISO 2768-1:1989, General tolerances, Part 1: tolerances for linear and angular dimensions without individual tolerance indications (resumo e situação: confirmada em 2022, em revisão), novembro de 1989, confirmada em 2022.
- ABNT Catálogo, ABNT NBR ISO 22081:2025, Especificações geométricas de produto (GPS): tolerância geométrica, especificações geométricas gerais e especificações dimensionais gerais (resumo, em vigor), junho de 2025.
- ISO, ISO 22081:2021, Geometrical product specifications (GPS): geometrical tolerancing, general geometrical specifications and general size specifications (resumo, confirmada em 2026), fevereiro de 2021.
- ISO, ISO 8015:2011, Geometrical product specifications (GPS): fundamentals, concepts, principles and rules (resumo, confirmada em 2021), junho de 2011.
- ISO, ISO 13920:2023, Welding: general tolerances for welded constructions, dimensions for lengths and angles, shape and position (resumo), junho de 2023.
- ISO, ISO 8062-3:2023, Geometrical product specifications (GPS): dimensional and geometrical tolerances for moulded parts, Part 3: general tolerances and machining allowances for castings (resumo), fevereiro de 2023.
- ISO, ISO 1:2022, Geometrical product specifications (GPS): standard reference temperature for the specification of geometrical and dimensional properties (resumo), junho de 2022.
- INRiM, Istituto Nazionale di Ricerca Metrologica, Published the standard EN ISO 1:2022 (standard reference temperature), 19 de julho de 2022.
- ISO, ISO 14253-1:2017, Geometrical product specifications (GPS): inspection by measurement of workpieces and measuring equipment, Part 1: decision rules for verifying conformity or nonconformity with specifications (resumo, confirmada em 2023), outubro de 2017.
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